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Apresentação |
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Latas
mágicas, latentes magias
A
fotografia nos coloca constantemente diante de um mistério, e nunca
diante de uma certeza. Ela nos obriga a uma interrogação sobre as
nossas vidas, sobre o mundo que nos cerca. A fotografia é uma revelação,
uma experiência de iluminação. É exatamente neste ponto que os
artistas do grupo Lata Mágica sabem trabalhar: nestas tensões
latentes, características da imagem fotográfica, buscando uma nova
maneira de ver, um novo preto-e-branco. Paradoxal recuo no tempo: ao
reabilitar uma técnica ancestral e procedimentos antigos, a fim de
remexer com o passado e de romper com a lógica industrial e comercial
das técnicas modernas de gravar imagens, através da utilização da
velha câmera pinhole, o Lata Mágica valoriza o gesto criador. E ainda
reinscreve o indivíduo, aquele que cria a imagem, no processo.
Fotografar é tentar
agir contra o tempo: parar o tempo, tornar presente para sempre o
passado, transformar um instante em eternidade. Como o inconsciente, a
imagem fixa das fotografias representa algo fora do tempo. E a técnica
pinhole desenvolvida pelo grupo é, acima de tudo, uma técnica fora
do tempo: tanto do passado como do futuro. Porque ela sempre será
atraente pela sua simplicidade. É só pensarmos no tempo de exposição:
quantos segundos, quantos minutos são necessários para a gravação da
imagem latente no interior da lata que um dia guardou um panettone?
Tempo mágico. A fotografia trabalha com um material diferente das
outras linguagens, um material-tempo. E porque este tempo é de fato um
tempo suspenso, ele deve ser conduzido por um artista, que nele é o
ator principal, embora não seja o único.
Neste projeto
denominado O Olhar Passageiro, atores serão, tenho certeza, todos
aqueles que observam as imagens realizadas pelo grupo. Aqueles indivíduos
simples, mas que se deixam sonhar em uma viagem de ônibus pelas ruas da
cidade. A fotografia tem este poder de nos fazer imaginar e nos
interrogar porque ela trabalha os nossos contrários: o longe e o perto,
a fluidez e o congelamento, o negativo e o positivo, a forma e o
material, o real e a imagem. É por isto que a fotografia é poética. A
fotografia é uma oportunidade para o poeta, um achado para o artista,
um privilégio para o homem em geral. As belas imagens obtidas por uma
singela câmera pinhole, por sua estranha beleza ou pelo seu aspecto
sublime, provam que a arte fotográfica existe. É isto que nutre o
nosso pensamento.
Fotografar é estar próximo
e estar longe. Coincidente,
é a mesma condição que se encontra um passageiro de ônibus. Explico
melhor: a fotografia é um aprendizado de separação, ou uma promessa
de um encontro para bem breve. No ônibus, estamos sempre na condição
de separação, de deixar algo, ou então em uma condição de chegada.
Tomar um ônibus: sair de um lugar, ir para outro lugar. Olhar uma
fotografia também: nos damos conta de que aquela imagem está longe,
separada de nós. Mas ao mesmo tempo, sabemos que, se quisermos, nós
poderemos alcançá-la.
A fotografia é um
grito silencioso. Diferentemente da pintura, que nasceria do ato de
acrescentar sombras e luzes, a fotografia surgiria da incerteza.
Incerteza de uma imagem latente, captada no interior de uma câmara. As
variações luminosas são presas por um obturador manual, no caso da
pinhole. Por um dedo. Latentes pulsações, latentes ruídos, latentes
perspectivas distorcidas, latas mágicas na cabeça.
A imagem presa dentro da lata é uma
promessa de imagem, uma imagem a surgir, incerta e frágil. Ela não
possui outra realidade que a do desejo, a da angústia pelo que pode
vir, tanto que nós só descobriremos quando nada mais será possível
mudar, como na hora da revelação. Como a fecundação, a gestação, e
os antigos nascimentos antes das imagens de computador. A
fotografia pinhole é antes de tudo uma promessa de recuperação
de um mistério, do mistério da criação.
Eduardo Vieira da Cunha |
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